São Paulo, Segunda-feira, 21 de setembro de 2026

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Alerta global sobre IA: O impasse entre humanizar a tecnologia e resgatar a nossa própria essência

Alerta global sobre IA: O impasse entre humanizar a tecnologia e resgatar a nossa própria essência

Por Redação

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O senador americano Bernie Sanders utilizou uma abordagem direta para ultrapassar a bolha do setor tecnológico. Em uma carta enviada a Sam Altman, Dario Amodei e Mark Zuckerberg, o parlamentar exigiu que OpenAI, Anthropic e Meta pausassem o desenvolvimento da inteligência artificial, resumindo sua advertência em uma ordem clara: parar de construir máquinas que os seres humanos não conseguem controlar.

Há anos, o discurso de que é preciso humanizar a tecnologia tem sido repetido à exaustão. Isso implica tornar os sistemas mais acessíveis, intuitivos e conversacionais. Houve uma transição de comandos que exigiam treinamento técnico para interfaces capazes de entender a fala humana, ajustar o tom, reconhecer o contexto e redigir rapidamente desde uma mensagem de aniversário até um pedido de desculpas ou um texto corporativo. A máquina deixou de impor a própria linguagem e aprendeu a nossa.

Essa fronteira deixou de ser hipotética. De acordo com uma pesquisa nacionalmente representativa conduzida pela Common Sense Media em 2025 com 1.060 adolescentes entre 13 e 17 anos nos Estados Unidos, 72% relataram ter utilizado companheiros de IA ao menos uma vez, sendo 52% usuários regulares. Além disso, um terço dos entrevistados afirmou recorrer a essas ferramentas para interações sociais ou relacionamentos, o que inclui amizade, busca por apoio emocional e até flerte.

Uma parceria de pesquisa entre a OpenAI e o MIT Media Lab traz maior nuance para esse debate. Após analisar de forma automatizada quase 40 milhões de interações e realizar um estudo controlado com cerca de mil participantes, os pesquisadores concluíram que o envolvimento emocional intenso com a máquina ainda é incomum e restrito a um grupo reduzido. Contudo, o uso diário prolongado mostrou associação com piores resultados para determinados usuários. Os próprios autores alertam que várias relações observadas não comprovam causalidade e que os achados iniciais não devem ser generalizados. Ainda assim, o questionamento permanece aberto.

Durante a pandemia, o conceito de empatia tornou-se um dos mais vocalizados por corporações e lideranças, que passaram a enfatizar a escuta, a vulnerabilidade e o cuidado. Embora a emergência sanitária tenha passado, a retórica permaneceu, mas a prática nem sempre acompanhou as palavras. Em 2025, o relatório State of the Global Workplace 2026, elaborado pela Gallup, apontou que 40% dos trabalhadores em todo o mundo sentiram muito estresse no dia anterior. Outros 22% relataram níveis elevados de raiva e a mesma proporção indicou solidão, enquanto apenas 20% demonstraram engajamento em suas funções.

No cenário global, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a depressão e a ansiedade eliminem 12 bilhões de dias de trabalho anualmente, gerando um custo de US$ 1 trilhão em produtividade perdida. No Brasil, dados do Ministério da Previdência citados pela Fundacentro revelaram a concessão de cerca de 472 mil benefícios relacionados a transtornos mentais no decorrer de 2024.

A tecnologia, por si só, não é a única responsável por nos tornar mais ansiosos, agressivos ou intolerantes. As plataformas digitais atuam na amplificação de comportamentos, os modelos de negócio recompensam a atenção obtida e os ambientes virtuais diminuem o custo da hostilidade. No entanto, sempre existem escolhas humanas por trás da arquitetura, dos incentivos, da regulação e da aplicação dessas ferramentas. O algoritmo pode até sugerir o conflito, mas cabe aos humanos decidir premiá-lo com audiência, voto, polarização, bônus ou silêncio.

Para as empresas, essa provocação gera consequências práticas imediatas. Não faz sentido oferecer um assistente virtual empático ao consumidor enquanto se mantém uma liderança que humilha a equipe. É ineficaz automatizar a jornada do cliente e estruturar a jornada do colaborador com base na sobrecarga, no medo e na ambiguidade. Do mesmo modo, medir sentimentos em tempo real torna-se inútil se os funcionários não possuem segurança psicológica para discordar em uma reunião. A humanização não se resume a uma camada de linguagem; ela exige desenho adequado de relações e distribuição justa de poder.

Isso demanda uma revisão profunda de metas, cargas de trabalho, autonomia, canais de contestação e da qualidade dos diálogos corporativos. São necessárias lideranças capazes de fornecer contexto, reconhecer limites e enfrentar divergências sem transformá-las em ataques pessoais. A comunicação não violenta não propõe a eliminação do conflito, mas sim a remoção da humilhação dele. A Gallup estima que 70% da variação no engajamento de uma equipe esteja diretamente relacionada ao estilo de gestão. Consequentemente, a cultura de uma organização não se define pelo que ela publica, mas sim pelo que a liderança recompensa, corrige e tolera diariamente.

Também se faz urgente redefinir as expectativas em relação aos produtos digitais. Toda aplicação de inteligência artificial deveria responder a questionamentos fundamentais: o usuário está ciente de que interage com uma máquina? Ele compreende como determinada decisão foi tomada? Existe a possibilidade de solicitar uma revisão humana? Há proteções adicionais voltadas a públicos vulneráveis? Existe um responsável legal ou técnico caso o sistema cometa falhas? Elementos como transparência, consentimento, privacidade e direito de recurso revelam-se muito mais humanos do que qualquer avatar com inteligência artificial programado para sorrir.


Fonte original: canaltech.com.br


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