A poucos dias do primeiro turno das Eleições 2026, marcado para domingo (4), vídeos e áudios de candidatos circulam com velocidade alarmante pelas redes sociais e aplicativos de mensagens. Com o avanço das ferramentas de inteligência artificial, capazes de reproduzir rostos e vozes com precisão impressionante, procurar apenas por erros visuais já não é suficiente para atestar a veracidade de uma gravação.
Movimentos estranhos da boca, deformações no rosto, sombras incoerentes ou problemas em mãos e acessórios ainda podem levantar suspeitas. No entanto, Paulo Baldin, especialista em cibersegurança, proteção de dados e governança digital da CLA Brasil, ressalta que esses sinais devem ser tratados estritamente como alertas, e não como provas definitivas de manipulação. Isso significa que um conteúdo falso pode passar despercebido sem apresentar defeitos evidentes, da mesma forma que problemas técnicos — como compressão de vídeo, conexões ruins ou falhas de sincronização — podem fazer com que uma gravação genuína pareça adulterada.
Durante os primeiros anos de popularização dessas tecnologias, características como mãos deformadas e movimentos robóticos eram indícios comuns. Embora esses problemas ainda ajudem a despertar atenção, o especialista recomenda observar detalhes como a sincronia entre a fala e os movimentos da boca, variações nos contornos do rosto ao longo do vídeo, além da coerência entre sombras, reflexos e a iluminação do ambiente. Dentes, óculos, acessórios e a própria textura da pele também merecem atenção redobrada.
Contudo, transformar essas pistas em um teste infalível de deepfake é um erro. Um conteúdo falso pode parecer perfeito, enquanto um vídeo verdadeiro pode apresentar falhas de sincronização ou perda de qualidade, aponta Baldin, reforçando que a ausência de defeitos visuais não confirma a autenticidade de um material.
Para regulamentar a questão, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) definiu em setembro critérios claros para caracterizar deepfakes no contexto eleitoral. Segundo a Corte, a definição engloba conteúdos sintéticos produzidos ou manipulados com inteligência artificial ou tecnologia equivalente, que possuam grau de realismo capaz de criar, reproduzir ou alterar a imagem, a voz ou a manifestação de uma pessoa.
A complexidade se eleva ainda mais no caso de áudios. Sistemas modernos de clonagem de voz conseguem utilizar registros anteriores — como entrevistas, discursos e vídeos publicados na internet — para replicar as características vocais de um indivíduo e gerar frases inéditas. Um estudo publicado em 2025 na revista Scientific Reports ilustra bem essa dificuldade: participantes identificaram corretamente vozes geradas por IA em apenas cerca de 60% das tentativas. Quando expostos a uma voz verdadeira e ao seu respectivo clone lado a lado, os participantes consideraram que ambas pertenciam à mesma pessoa em aproximadamente 80% dos casos.
Um exemplo recente dessa ameaça ocorreu na própria campanha presidencial de 2026. Em setembro, o Projeto Comprova verificou um áudio falso atribuído ao candidato Renan Santos (Missão). Uma análise conduzida com a ferramenta Hive Moderation apontou 99,2% de probabilidade de que a fala tivesse sido gerada de forma artificial. A publicação fraudulenta ainda utilizava elementos da identidade visual do The Intercept Brasil para simular uma reportagem legítima, embora o veículo tenha confirmado posteriormente que jamais produziu ou publicou tal material. O episódio demonstra que golpistas frequentemente se valem de logotipos, fotos e identidades visuais conhecidas para conferir falsa credibilidade aos conteúdos.
Diante desse cenário desafiador, especialistas recomendam seguir uma série de passos fundamentais para a checagem de conteúdos suspeitos:
- Procure a publicação original: Busque o nome do candidato e palavras-chave da declaração para localizar a gravação completa.
- Confira a data: Vídeos antigos frequentemente voltam a circular fora de contexto, simulando acontecimentos atuais.
- Assista ao conteúdo completo: Cortes e edições maliciosas podem retirar uma fala verdadeira de seu contexto original.
- Procure confirmação independente: Consulte veículos jornalísticos profissionais, agências de checagem de fatos e os canais oficiais dos candidatos.
- Verifique quem publicou: No caso de perfis associados a candidatos, confira o endereço exato da conta e os links divulgados, em vez de confiar apenas no nome, na foto ou em selos de verificação.
Segundo Paulo Baldin, até mesmo contas com poucos seguidores ou criadas recentemente não devem ser descartadas ou consideradas falsas de forma leviana apenas por essas características; o ideal é analisar o conjunto da obra e confirmar se há vínculo direto com os canais oficiais da candidatura. Vale lembrar que os endereços eletrônicos utilizados pelas campanhas devem ser informados obrigatoriamente à Justiça Eleitoral no registro de candidatura ou atualizados em até 24 horas, sendo possível consultar todas as informações oficiais por meio do sistema DivulgaCandContas do TSE.
A legislação eleitoral também impõe regras rígidas sobre o tema. O uso de inteligência artificial na propaganda eleitoral exige que os conteúdos sintéticos informem de maneira explícita que houve fabricação ou manipulação, indicando claramente a tecnologia empregada. O TSE proíbe terminantemente o uso de deepfakes para favorecer ou prejudicar candidaturas. Além disso, nas 72 horas que antecedem o pleito e até 24 horas após o encerramento da votação, ficam estritamente vedadas a publicação, a republicação e o impulsionamento de novos conteúdos sintéticos gerados por IA que utilizem a imagem, a voz ou a manifestação de candidatos e figuras públicas. Por fim, a recomendação central é clara: na dúvida, qualquer conteúdo cuja origem não possa ser atestada com segurança deve ser tratado como informação não verificada, mesmo que exiba uma aparência altamente realista.
Fonte original: Canaltech